O Baobá Grupo de Estudos Negros de Sorocaba-SP vem manifestar a indignação pública pelo lamentável ocorrido na Capela Nosso Senhor do Bonfim, conhecida carinhosamente como Capela de João de Camargo, situada na Av. Barão de Tatuí, 1083. No dia 19 de janeiro, devido às fortes chuvas, ocorreu uma inundação pelas águas dos rios que estão no entorno da capela. Tragédia previamente anunciada por muitos que frequentam e realizam pesquisas sobre o território, a capela e a história de João de Camargo.

Parte significativa da estrutura como a cozinha do espaço, muros e parte das grades veio a cair com a força das águas, danificando o acervo histórico de valor inestimável. Mobílias históricas tanto de João de Camargo como de Monsenhor João Soares foram afetadas, assim como imagens de cunho histórico e religioso. A Associação Espírita Beneficente Nosso Senhor do Bonfim, gestora do espaço, contou com a ajuda de devotos e pessoas ligadas à capela, que entendem a importância histórica do patrimônio para remediar um pouco a situação.

Todavia, estamos aqui para lembrar que a responsabilidade por essa tragédia é dos poderes públicos que negligenciaram os avisos e não promoveram uma gestão ambiental/patrimonial adequada. Práticas comuns que integram o histórico de apagamento da história e da memória negra sorocabana.

Quando olhamos o passado, constatamos que Sorocaba historicamente assumiu um projeto de modernização/industrialização que visava torná-la a Higienópolis Paulista (BATAIOTE,, 2022). Também encontramos na história da cidade a alcunha de Manchester Paulista – alusão a industrializada cidade inglesa (PINTO JUNIOR, 2003). Em consequência da modernização, identificamos o apagamento proposital das memórias negras da cidade – compreendidas como atrasadas; também como uma forma de ocultar o passado da escravidão que se manifestou em terras sorocabanas. Desde a virada do século 19 para o 20, a população negra passou a ser perseguida pela Guerra a Vadiagem (CAVALHEIRO, 2010), o que coibiu, uma vez mais, as contribuições negras para a formação dessa cidade.

Na primeira metade do século 20 os terreiros de macumba, os religiosos de matrizes africanas e as expressões culturais como as congadas foram duramente perseguidas pelas forças de segurança pública e pelas elites herdeiras do colonialismo local (Fernandes,2007). Algo que se somou à ideologia do branqueamento e de propostas eugenistas que permearam a mentalidade sorocabana.

João de Camargo, homem negro, nascido ainda nos tempos de cativeiro, se tornou um ponto de inflexão ao fundar uma religião sorocabana (CAMPOS, FRIOLI, 1999). Marcada pelas várias Áfricas que habitavam o cotidiano da cidade, Nhô João consolidou um território negro em Sorocaba, onde era possível resistir e existir ao apagamento promovido pelo movimento do progresso. Ele se tornou um mediador das relações de poder e encontrou caminhos possíveis para as ditas classes perigosas.

A Banda número 5, denominada posteriormente como banda São Luíz veio a se tornar elemento importante no Bairro da Água Vermelha, banda que atravessava a cidade com os corpos negros e gerava renda para os seus músicos. Construiu casas e toda uma estrutura para receber os fiéis que vinham em busca de cura e aconselhamento, além de construir uma escola mista para alfabetizar as crianças desfavorecidas no seu entorno. Diante da sua fama, que só cresceu após a sua prisão em 1913, a cidade de Sorocaba teve que respeitar o seu território enquanto esteve vivo.

João de Camargo veio a falecer em 1942, deixando um legado imenso para a história negra de Sorocaba, constituindo-se como elemento fundamental ao enfrentamento à proposta higienista da cidade. Aceitou todos aqueles que buscavam ajuda, e promoveu o sincretismo com o espiritismo em uma das faces que constituem a história desse Preto Velho que atravessou a cidade com a sua espiritualidade. Porém o embranquecimento sistemático da sua história, e o descaso com que os poderes públicos lidam historicamente com tal patrimônio, faz do ocorrido na capela neste início de ano algo que não se trata de uma fatalidade, mas sim de um projeto que busca apagar as permanências das memórias negras que lutaram contra o racismo.

Tal acontecimento trágico, diga-se de passagem, nos chama atenção para pensarmos os rumos que devemos tomar com os patrimônios públicos e principalmente com a história e a memória dos que foram subalternizados para que a cidade fosse edificada.

Apagar a história de um povo, e a sua forma de viver, bem como os seus valores, é apagar a sua humanidade.

Referências: